Hoje foi frustrante. Podias ter-me avisado, queria tanto estar contigo um bocado, abraçar-te e sentir a tua respiração na minha pele, o teu abraço sufocante à minha volta, os teus beijos carinhosos e ardentes nos meus ombros e pescoço. Espero sempre pela hora do dia em que vou poder ouvir a tua voz querida e ver o teu sorriso lindo que me faz sorrir de volta... a altura em que posso voltar a olhar bem fundo nos teus olhos, daquela cor que toda a gente tem, mas que mesmo assim consegues tornar únicos, com esse teu "je ne sais quois", esse teu jeito especial que me arrepia o corpo e me aquece o coração. A altura em que me beijas de volta e sinto o calor, a tua língua a enrolar-se na minha, e eu suspiro e deixo-me levar. Deliro quando passo a mão no teu cabelo despenteado, preto como carvão, delicioso, lindo.
O melhor começa quando nos afastamos, após o primeiro beijo e olhamos um para o outro a sorrir, sem jeito e sem saber o que fazer a seguir... mas tu sabes. E agarras a minha mão, num entrelaçar suave de dedos, e eu acaricio a tua pele macia das costas das mãos, e a pele menos macia, mas tão boa, das palmas, e fecho os olhos por breves momentos que parecem passar a voar, mas que talvez sejam mais uma partida do tempo. Na vida tudo o que é bom e nos delicia parece passar a correr, ou a voar como dizem. Para mim não. Para mim o tempo é apenas mais um enigma da vida, que só encurta e engrandece segundo a nossa percepção distorcida da vida.
Era mais fácil e menos doloroso se as horas não dependessem do uso, bom ou mau, que lhes damos. Mas não é assim. Nem o tempo escapa à corrupção humana. E contigo as horas parecem segundos.
terça-feira, 29 de junho de 2010
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Pai
Pensei que ser pai era amar incondicionalmente. Era pôr de parte os interesses próprios em favor dos do filho. Era compreender a humanidade, as emoções da criança que criou nos braços, as suas necessidades e afectos. Sempre pensei que ser pai... era ser como a minha mãe. Mas agora a mãe já não está cá. Já não habita a mesma dimensão, sensível, corpórea, que eu, já não a posso tocar, sentir, ouvir, pelo menos não conscientemente. Agora precisava mesmo do meu pai. Era o último suporte, a única certeza absoluta que tinha. E ele vai-se. Retira-se, de livre e espontânea vontade, como se escorraçasse um cão que o incomoda. É engraçado como o simbolismo se aplica tão bem na vida quotidiana, kitsch?, não, real.
Mais que nunca preciso de estabilidade na minha vida. Preciso de amor, carinho, compreensão, e ele só se preocupa em que eu vá para ele. Mas que merda é esta, um pai que só se preocupa em ter aquilo que quer a qualquer custo, independentemente da vontade do filho? Ele desrespeitou-me como nunca antes, disse que se fosse preciso arrastava-me para fora de casa, mandou-me fazer as malas mas não fui, disse que eu não sabia cozinhar apesar de cozinhar melhor do que ele, que não sabia fazer a lida da casa apesar de limpar mais numa semana do que ele limpa num mês, e aspirou-se a que devia ser ele a ensinar-me tudo isto, e ainda mais alguma coisa. "O que é que me vais ensinar pai? A arte da frieza? Da manipulação? Do egoísmo? De espezinhar, humilhar e usar as pessoas como instrumentos no teu jogo de obter aquilo que queres? Quem sabe, não me corre já nos genes...". Insultou os meus avós, a minha mãe. Tive vontade por momentos de lhe partir a cara toda, bocado a bocado, lentamente. Mas não o fiz. E não o farei, e não permitirei que ninguém o faça porque a vingança da vida vai ser tão, mas tão má que nada do que eu lhe possa fazer irá conseguir superar o que lhe vai acontecer. Os maus, mais cedo ou mais tarde, têm sempre o que merecem. Mesmo que não se saiba, é certo que sim.
É triste, e não desejo a ninguém, perder um pai e uma mãe ao mesmo tempo. Mas apesar de tudo ele continua a ser meu pai, e tenho medo de acordar amanhã e de ele também já não estar lá. Não sei se aguentava. Bom ou mau, é meu pai, e esteve presente em situações importantíssimas da minha vida. Tenho memórias (o kitsch), que são o que me mantém agarrada à ideia de que posso perdê-lo a qualquer minuto, aliadas à incerteza do futuro que paraliza. Mas não pode. Não podemos temer o que não conhecemos porque senão nunca andávamos para a frente. Gosto de escrever porque me liberta. Sinto-me viva, racional, coerente e que tenho valor. Não vou parar aqui. Tenho de viver. Tenho de ser forte, ou de fingir e de me enganar a mim própria dizendo que sou mas não sendo, mas tem de ser. Tenho de seguir. O caminho é para a frente, e para a frente andarei. Com ou sem pai, com ou sem mãe, tenho de conseguir.
Mais que nunca preciso de estabilidade na minha vida. Preciso de amor, carinho, compreensão, e ele só se preocupa em que eu vá para ele. Mas que merda é esta, um pai que só se preocupa em ter aquilo que quer a qualquer custo, independentemente da vontade do filho? Ele desrespeitou-me como nunca antes, disse que se fosse preciso arrastava-me para fora de casa, mandou-me fazer as malas mas não fui, disse que eu não sabia cozinhar apesar de cozinhar melhor do que ele, que não sabia fazer a lida da casa apesar de limpar mais numa semana do que ele limpa num mês, e aspirou-se a que devia ser ele a ensinar-me tudo isto, e ainda mais alguma coisa. "O que é que me vais ensinar pai? A arte da frieza? Da manipulação? Do egoísmo? De espezinhar, humilhar e usar as pessoas como instrumentos no teu jogo de obter aquilo que queres? Quem sabe, não me corre já nos genes...". Insultou os meus avós, a minha mãe. Tive vontade por momentos de lhe partir a cara toda, bocado a bocado, lentamente. Mas não o fiz. E não o farei, e não permitirei que ninguém o faça porque a vingança da vida vai ser tão, mas tão má que nada do que eu lhe possa fazer irá conseguir superar o que lhe vai acontecer. Os maus, mais cedo ou mais tarde, têm sempre o que merecem. Mesmo que não se saiba, é certo que sim.
É triste, e não desejo a ninguém, perder um pai e uma mãe ao mesmo tempo. Mas apesar de tudo ele continua a ser meu pai, e tenho medo de acordar amanhã e de ele também já não estar lá. Não sei se aguentava. Bom ou mau, é meu pai, e esteve presente em situações importantíssimas da minha vida. Tenho memórias (o kitsch), que são o que me mantém agarrada à ideia de que posso perdê-lo a qualquer minuto, aliadas à incerteza do futuro que paraliza. Mas não pode. Não podemos temer o que não conhecemos porque senão nunca andávamos para a frente. Gosto de escrever porque me liberta. Sinto-me viva, racional, coerente e que tenho valor. Não vou parar aqui. Tenho de viver. Tenho de ser forte, ou de fingir e de me enganar a mim própria dizendo que sou mas não sendo, mas tem de ser. Tenho de seguir. O caminho é para a frente, e para a frente andarei. Com ou sem pai, com ou sem mãe, tenho de conseguir.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Olá, sou um bocado de carne à venda. Quem quer?
Vinte e Cinco
Ontem gritou-se Liberdade. Ontem bradou-se "Fascismo Nunca Mais". Ontem, já passou. Hoje é 26 de Abril. Já ninguém se lembra.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Pare, Escute, Olhe... e mexa-se
... Porque a linha também é Tua. Hoje fomos ver (eu e a minha turma do 11º) este fantástico documentário, de tirar o fôlego a qualquer português que conheça a realidade do interior transmontano e da desertificação crescente dos espaços afastados do litoral.
Confesso, achei que apesar do tema interessante iria apanhar uma surpresa negativa porque estes documentários têm tendência para serem demasiado experimentais e pouco digeríveis, mas acabou por superar qualquer expectativa.
Faz pensar. As soluções são tão óbvias, estão mesmo ali, à frente do nosso nariz, e nós quase nunca damos por elas. Porque estamos mais preocupados em seguir fanaticamente o progresso europeu e os avanços tecnológicos do resto do mundo, de tal forma que nem paramos para pensar que talvez um olhar na direcção oposta fizesse toda a diferença.
Jorge Pelicano olha na direcção exactamente oposta da que poderíamos supor. Ele submete-se à caminhada por toda a linha do Tua e seus apeadeiros, agora abandonados e decrépitos, e entrevista as populações locais e circundantes de forma a conhecer a realidade destas pessoas modestas que só querem uma maneira de ir à outra banda comprar e vender legumes, ou simplesmente dar uma voltinha enquanto esperam pela morte que, sabem, não há-de tardar.
Paralelamente, vemos antigas e recentes reportagens a antigos e recentes governantes do país (cada um melhor que o outro...), em que as mudanças de perspectiva são revoltantemente chocantes e demonstram a hipocrisia de que é feita a política nacional. De facto, às vezes pergunto-me: quanto mais tempo conseguiremos aguentar sem uma revolução?
Confesso, achei que apesar do tema interessante iria apanhar uma surpresa negativa porque estes documentários têm tendência para serem demasiado experimentais e pouco digeríveis, mas acabou por superar qualquer expectativa.
Faz pensar. As soluções são tão óbvias, estão mesmo ali, à frente do nosso nariz, e nós quase nunca damos por elas. Porque estamos mais preocupados em seguir fanaticamente o progresso europeu e os avanços tecnológicos do resto do mundo, de tal forma que nem paramos para pensar que talvez um olhar na direcção oposta fizesse toda a diferença.
Jorge Pelicano olha na direcção exactamente oposta da que poderíamos supor. Ele submete-se à caminhada por toda a linha do Tua e seus apeadeiros, agora abandonados e decrépitos, e entrevista as populações locais e circundantes de forma a conhecer a realidade destas pessoas modestas que só querem uma maneira de ir à outra banda comprar e vender legumes, ou simplesmente dar uma voltinha enquanto esperam pela morte que, sabem, não há-de tardar.
Paralelamente, vemos antigas e recentes reportagens a antigos e recentes governantes do país (cada um melhor que o outro...), em que as mudanças de perspectiva são revoltantemente chocantes e demonstram a hipocrisia de que é feita a política nacional. De facto, às vezes pergunto-me: quanto mais tempo conseguiremos aguentar sem uma revolução?
sábado, 17 de abril de 2010
Professores e Individualismo
Os professores não percebem que o papel que desempenham na sociedade é muito mais do que passar cultura e formação teórica: o papel deles é educar e fornecer as ferramentas necessárias aos futuros construtores do Novo Mundo para que não cometam os mesmos erros que a geração deles cometeu. O que falta é consciência social, isto é, ter noção de que os nossos actos e as nossas atitudes importam para que está ao nosso lado. O que falta é combater o individualismo.
domingo, 11 de abril de 2010
Sou mulher, não escrava do homem
Todas as mulheres neste Sistema são invisíveis.Só o não são as mulheres que correspondem ao imaginário masculino, as mulheres objecto, as mulher insufladas de silicone, concebidas e criadas por eles, NAS SALAS DE OPERAÇÃO, na publicidade, nas passerelles, nos filmes etc."
Por Rosa Leonor Pedro, feminista acérrima por quem nutro o mais profundo respeito. Retirado do blog A Alta Sacerdotisa que recomendo a toda a gente mesmo.
sexta-feira, 9 de abril de 2010
A Família Portuguesa
Não sei se já repararam, mas algumas farmácias fornecem uma revista chamada A Família Portuguesa que de revista familiar só tem mesmo o nome.
Sinceramente não percebo. "Encontrei um modo natural de controlar o meu colestrol" : comprimidos. "Um impulso natural na sua vida sexual" : comprimidos e vitaminas. "Perdi 12 kgs na cintura e nas ancas!" : exercício? Nem pensar. Comprimidos e dietas absurdas. Na verdade há poucas ou nenhumas referências a exercício físico e a hábitos alimentares saudáveis nesta revista que se diz d'A Família Portuguesa, e por isso sinto-me insultada e reduzida ao pensar nos desesperados que vão a correr comprar estas merdas, e nesta sociedade capitalista e ridícula que promove a veneração do Ser Perfeito quando é mais do que óbvio que esse Ser apenas existe com recurso ao Photoshop e à imaginação fértil de uns quantos fúteis que reinam nas passereles e nos Grammys...
Ouçam lá: eu sou baixinha, branca, cheia de sardas, a minha barriga faz duas dobras quando me baixo, as minhas coxas abanam mais do que gelatina, tenho pés de hobbit, nariz de caturra, olheiras até ao umbigo e sou peluda, e sabem que mais? SOU FELIZ. Porque tenho uns olhos e um cabelo bonitos e uma personalidade espectacular, amigos especiais que podem confirmar tanto os aspectos positivos como os negativos já falados e uma famelga super estranha que adoro. É tempo de esquecermos a Utopia, o consumismo, a inveja e a adoração pelas top models, as dietas que não levam a lado nenhum e os tratamentos anti-naturais que vemos publicitados diariamente em jornais, revistas, anúncios televisivos e cartazes. É tempo de olharmos um gordo da mesma maneira que um magro, de reconhecermos o mérito ao interior antes de o fazermos ao exterior... É tempo de desligarmos o interruptor do Preconceito e de ligarmos o da Aceitação, pelo que somos e pelo que os outros são, pelo que é Natural e Puro e não pelo que é artificial e falso.
terça-feira, 6 de abril de 2010
Estio - Um Olhar
Tenho saudades do Verão. Saudades do sol que aquece em vez de arrefecer, ainda mais, os nossos corpos latinos eternamente desabituados do gelo do Inverno. Saudades dos escaldões e da pele queimada dos camionistas que acenam às raparigas de calções, na rua. Saudades da praia, daquela imensa planície de aveia cortada rente ao chão, transformada em pó mágico e brilhante que se cola à pele. Saudades do mar, dos mergulhos, das chapas e dos risos irreais dos amigos, que juntos rejubilam de felicidade, rejubilam com a Luz. Saudades de secar na toalha e sentir as gotas de água salgada a escorrerem do meu cabelo para o meu rosto. Saudades de ir embora, e voltar na manhã seguinte. Saudades dos tops, das t-shirts, dos vestidos e dos bikinis. Saudades das raparigas mais bonitas que eu e dos rapazes bronzeados. Saudades das férias, das tardes passadas no cinema, em casa ou na Baixa. Saudades das coisas que nunca foram, das pessoas que nunca nasceram, das noites que nunca amanheceram. Saudades dos momentos nos blocos, deitados na relva, conversando ou simplesmente trocando sorrisos e olhares. Saudades de parar debaixo do toldo de uma cafetaria e apreciar a sombra, tão bem vinda. Saudades da auto-estrada a alta velocidade, do alcatrão a ferver, quase derretendo, e das ondas de calor que se vêem ao longe, oscilando provocadoramente. Saudades da brisa do fim de tarde, que docemente sopra no meu rosto como o beijo indeciso de uma donzela renascentista ao seu amado. Saudades de respirar o ar saturado, quente, que entra para os pulmões e faz suster a respiração. Saudades da roupa colada ao corpo, da húmida transpiração, do corpo que protesta do intenso calor… da mente que, inconscientemente, anseia por um novo Inverno. Saudades, por fim, do Inverno que ainda não passou, pois sem ele o verão nada significaria. O Inverno é um estado meteorológico, mas o verão… o verão é quem nós somos. Eu sou o Verão.
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